A Polícia Federal apreendeu documentos com referências a pelo menos 25 agentes políticos durante as investigações que envolvem o contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho. O material, localizado em uma operação realizada em 2022, serviu como um dos elementos que fundamentaram a nova fase da Operação Unha e Carne, deflagrada nesta quinta-feira (2), que teve entre os alvos o pastor e empresário Márcio Pôncio e o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar.
Segundo a PF, as listas foram encontradas durante a Operação Smoke Free, dentro de uma mala de couro localizada em um dos imóveis ligados ao investigado. No interior do objeto, os agentes encontraram planilhas, anotações financeiras e documentos que, de acordo com a investigação, registrariam pagamentos, doações eleitorais e movimentações suspeitas relacionadas à lavagem de dinheiro.
Documentos citam codinomes e supostos repasses
Embora a Polícia Federal não tenha divulgado oficialmente os nomes que aparecem nas listas, as investigações apontam que Rodrigo Bacellar seria identificado pelo codinome “Barba” em duas planilhas atribuídas a Adilsinho.
Preso desde fevereiro, o ex-deputado voltou a ser alvo da operação desta quinta-feira e, por determinação judicial, deverá ser transferido para um presídio federal.
Já o pastor Márcio Pôncio foi preso em um apart-hotel no Rio de Janeiro. Empresário do setor de tabaco, ele passou a ser investigado por suspeita de envolvimento com a chamada “máfia do cigarro”, organização que, segundo a PF, seria liderada por Adilsinho.
Operação investiga vazamento de informações sigilosas
Nesta fase da Operação Unha e Carne, policiais federais cumpriram três mandados de prisão preventiva e 14 mandados de busca e apreensão em endereços localizados na capital fluminense e em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.
As ordens judiciais foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que também determinou o bloqueio de bens e valores estimados em aproximadamente R$ 22 milhões.
O inquérito apura a existência de uma organização responsável por obter e repassar informações sigilosas sobre operações policiais, comprometendo ações de combate ao crime organizado no estado.
Quem são os principais investigados
Márcio Pôncio ganhou notoriedade nacional por sua atuação como pastor, empresário e influenciador digital. Pai da deputada estadual Sarah Pôncio (Solidariedade) e do cantor Saulo Pôncio, ele construiu carreira no ramo do tabaco antes de ingressar na vida religiosa e passou a ser investigado por supostas ligações com o esquema criminoso.
Já Adilsinho está preso desde fevereiro, quando foi localizado em Cabo Frio durante uma ação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco), composta por agentes da Polícia Federal, Polícia Civil e Ministério Público Federal.
Considerado pelas autoridades um dos principais nomes do jogo do bicho no Rio de Janeiro, ele também é apontado como um dos maiores produtores e distribuidores de cigarros falsificados do estado. Na época da prisão, havia diversos mandados de prisão em aberto contra ele, além de integrar a lista dos criminosos mais procurados do país.
Rodrigo Bacellar, por sua vez, estava custodiado no Complexo de Gericinó, na Zona Oeste do Rio. Após a nova decisão judicial, foi levado à Superintendência da Polícia Federal e deverá cumprir prisão em unidade federal.
Segundo as investigações, ele é suspeito de ter repassado informações sigilosas sobre a Operação Zargun, que tinha como alvo integrantes do Comando Vermelho. A PF afirma que o vazamento teria beneficiado o ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Joias, apontado como articulador político da facção.
Investigação teve início em 2025
A Operação Unha e Carne foi deflagrada pela primeira vez em dezembro de 2025. Na ocasião, Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), tornou-se um dos principais investigados.
Dias depois, uma nova fase da operação resultou na prisão preventiva do desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2). A suspeita é de que informações sigilosas tenham sido repassadas ilegalmente antes de chegarem aos investigados.
Em março de 2026, a terceira etapa da investigação levou a uma nova prisão de Bacellar, após a cassação de seu mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o oferecimento de denúncia pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
A Polícia Federal também passou a relacionar a investigação à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como ADPF das Favelas, sustentando que os supostos vazamentos prejudicavam operações voltadas ao combate às organizações criminosas.
Defesas se manifestam
Em nota, a defesa de Marco Antônio Cabral informou que o cumprimento do mandado de busca e apreensão ocorreu de forma tranquila e afirmou que ele nega qualquer participação em organização criminosa, lavagem de dinheiro ou recebimento de recursos ilícitos. Segundo os advogados, Marco Antônio permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
A defesa de Adilsinho afirmou rejeitar as acusações de pagamento de vantagens indevidas a políticos ou agentes públicos e declarou confiar no andamento do processo judicial.
Já o advogado de Márcio Pôncio, Leandro Mendonça, informou que seu cliente permanece na Superintendência da Polícia Federal e que, até o momento da manifestação, a defesa ainda não havia obtido acesso aos autos do processo, o que, segundo ele, impede o conhecimento dos fundamentos que motivaram a decretação da prisão preventiva.



